Num mundo onde as coisas nunca eram da forma como ela queria, uma garota olhava pela janela do décimo andar. Morava em um prédio alto de uma cidade grande e extensa. Dalí podia ver basicamente tudo. As casas do condomínio em frente, grandes, com piscinas que brilhavam à luz da lua e paredes pintadas em cores claras e em tons pastéis que as faziam parecer uma cópia exata da casa ao lado. As árvores, em abundância por ali, ganhavam um brilho fantasmagórico àquela hora. Pareciam saídas de filmes de terror de quinta nos quais os galhos de um carvalho seco pelo inverno batiam na janela de garotinhas assustadas, as fazendo pular de medo. Eram mesmo carvalhos, aquelas na rua? Talvez, mas ela não tinha como saber. Já havia perdido o interesse pelas lâmpadas fracas e pela vizinhança pacata a muito tempo. Passara o tempo em que ela olhava por aquela mesma janela para observar como as pessoas pareciam – e se comportavam! – como formigas lá embaixo.
Agora, ela passara a olhar para cima ao invés de para baixo. A miríade de pontinhos do céu negro era hipnotizante. Pareciam pequenos furos feitos no manto da noite. Será que poderiam levar a outro universo?
Kay teria aquela resposta dois dias depois.