Teatro de Sombras

O Cara de Gravata Borboleta – Parte 1

Publicado por Nour em 21/05/2011

Num mundo onde as coisas nunca eram da forma como ela queria, uma garota olhava pela janela do décimo andar. Morava em um prédio alto de uma cidade grande e extensa. Dalí podia ver basicamente tudo. As casas do condomínio em frente, grandes, com piscinas que brilhavam à luz da lua e paredes pintadas em cores claras e em tons pastéis que as faziam parecer uma cópia exata da casa ao lado. As árvores, em abundância por ali, ganhavam um brilho fantasmagórico àquela hora. Pareciam saídas de filmes de terror de quinta nos quais os galhos de um carvalho seco pelo inverno batiam na janela de garotinhas assustadas, as fazendo pular de medo. Eram mesmo carvalhos, aquelas na rua? Talvez, mas ela não tinha como saber.  Já havia perdido o interesse pelas lâmpadas fracas e pela vizinhança pacata a muito tempo. Passara o tempo em que ela olhava por aquela mesma janela para observar como as pessoas pareciam – e se comportavam! – como formigas lá embaixo.

Agora, ela passara a olhar para cima ao invés de para baixo. A miríade de pontinhos do céu negro era hipnotizante. Pareciam pequenos furos feitos no manto da noite. Será que poderiam levar a outro universo?

Kay teria aquela resposta dois dias depois.

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Bad Apple

Publicado por Nour em 22/07/2010

Ali estava eu, aquela criatura magra e branquela naquela cidade em que todos eram estranhamente bronzeados. Os tenis All Stars no meio dos saltos dizia, sozinho, que eu não era como todo mundo. Em um mundo ideal isso não seria nem mesmo algo a ser comentado, mas creio que eu não passaria desapercebida por mais que quisesse. Alguma coisa em mim dizia “olhem para mim justamente quando eu tropeço em uma pedrinha qualquer”. Mesmo diante das minhas maiores desculpas eu sabia: era uma azadara de primeira linha e tinha certeza que alguma coisa ia dar errado naquele dia. Uma pena nem isso ter convencido a diretora de que eu não precisava ir para a colação de grau do 9º ano. Que dizer, eles podiam enviar o diploma por e-mail assim como teriam que fazer com o Julhinho… Mas segundo ela, eu teria que quebrar duas costelas e um braço antes de ela poder fazer aquilo.

Não, minha mãe não me deixou fazer Parkour na janela do primeiro andar para que isso acontecesse. Mas tudo bem. O problema era deles, afinal, eu já estava acostumada a pagar mico mesmo.

- Tem certeza que não quer que eu te empreste um sapato mais legal, Lori? – Perguntou uma de minhas supostas amigas, com um tom repreensivo.

- Desculpa Clarinha, mas duas horas com isso ai – disse, apontando para os pés dela – é tortura.

- Tudo bem, você é sempre a laranja estragada mesmo… – e saiu bufando, pisando no chão como se ao fazer isso pudesse abrir um buraco no chão e me jogar lá dentro.

Mais tarde naquele mesmo dia eu iria desejar com todas as minhas forças que ela tivesse conseguido aquilo.

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